Evolução do filme
"Em termos de seu desenvolvimento artístico somente, o cinema alcançou em dez anos um estágio que para o drama oral levou milhares de anos de progresso e evolução."
O texto a seguir é uma tradução feita por Christofer Pallu de Evolution of the Motion Picture, um breve e precioso relato escrito pelo grande pioneiro Edwin S. Porter em 1914 por ocasião de um número especial da Movie Picture World contendo artigos dedicados ao desenvolvimento do cinema nos Estados Unidos e às perspectivas para a ascendente indústria criada em torno da nova arte. Acrescento ainda três curtas seminais de Porter — o maravilhoso Coney Island at Night (1905), acima; A vida de um bombeiro americano (Life of an American Fireman, 1903), que o próprio diretor considerava sua realização mais inovadora; e O grande roubo do trem (The Great Train Robbery, 1903).
Uma versão anterior desta tradução saiu na antologia Arqueologia da invenção: pioneiros do cinema, catálogo lançado especialmente para a mostra homônima realizada na Cinemateca de Curitiba em 2022.
Uma excelente leitura a todos!
Evolução do Filme
por Edwin S. Porter
Olhando para trás, para os últimos dezoito anos do ramo cinematográfico — de volta ao dia em que ninguém sabia o que era um filme — e percebendo os grandes passos dados pela indústria desde então, estou mais do que impressionado. Estou entusiasmado. Artisticamente e mecanicamente, o cinema abriu caminhos para frente, sendo reconhecido como o maior fator de entretenimento do mundo e a maior força educacional da história da civilização.
Hoje, o filme faz ainda mais do que entreter e instruir; já foi além das necessidades e desejos atuais dos homens, e exercerá uma tremenda influência sobre a posteridade. Ele registrará as conquistas histriônicas dos gênios dramáticos do cenário contemporâneo; fará a crônica e reproduzirá a história como nenhum outro meio poderia fazer ou possivelmente fará. Como ilustração, o atual conflito mexicano, através do cinema, pode ser exibido às gerações futuras com tal realismo e exatidão que a palavra falada ou escrita jamais poderia transmitir.
Em termos de seu desenvolvimento artístico somente, o cinema alcançou em dez anos um estágio que para o drama oral levou milhares de anos de progresso e evolução. De passagem, no entanto, devemos registrar a afirmação de que o desenvolvimento do palco ajudou muito nos avanços do cinema, pois mesmo nos primeiros dias da história da indústria, era comumente reconhecido que a introdução de princípios dramáticos gerais na produção de filmes era desejável e necessária. O problema, porém, permanecia quanto ao melhor meio de utilizar a ciência do drama para conformá-la às limitações mecânicas do filme e, posteriormente, às vastas possibilidades que esses mesmos fatores mecânicos apresentavam.
O que o desenvolvimento do cinema sugere em primeiro lugar?
Evolução natural, uma evolução assistida e aprimorada pelas demandas de milhões que buscaram, e por muito tempo buscaram em vão, entretenimento fácil a um custo mínimo. Passo a passo, obstáculos foram superados, dificuldades sobrepujadas, crescimento e desenvolvimento, obtidos, não porque houvesse dinheiro a ser ganho com tal desenvolvimento, mas porque o público exigia e tornava necessário o avanço conquistado na arte cinematográfica. Ao público, mais ainda do que àqueles que trabalharam e se esforçaram para fazer apresentações artísticas de drama popular na tela, deve-se o crédito por tamanho progresso que já premiou os esforços dos produtores cinematográficos.
Minha afirmação é esta: se o público se contentasse em receber e apoiar os filmes medíocres que marcaram o início da indústria, esse padrão ainda seria aceitável. O público deve graças apenas a si mesmo por sua capacidade, hoje, de ver as belas, refinadas e artísticas apresentações da tela. Quanto aos produtores, eles deveriam se contentar em saber que o encorajamento público provou ser a inspiração que foi, e deveriam ser gratos por terem recebido a força e a iluminação para conquistar as grandes coisas que aquele encorajamento público sugeriu.
Vejo como numa visão na própria tela os dias de 1899; a era embrionária do cinema. Hoje ouvimos que o cinema ainda está em sua infância; se esta afirmação é verdadeira, naquela época ele era apenas um germe. Não havia guia para os métodos corretos, nem para as armadilhas a serem evitadas. A criação de um filme dependia mais do trabalho de adivinhação. Aliás, os filmes da época provaram isso.
Mais ou menos nessa época, quando fitas de 12 ou 15 metros estavam em voga, muitas vezes eu me perguntava por que não era possível produzir uma história dramática em filme. Nesse período eu era o produtor-chefe da Edison Company e pareceu-me peculiarmente apropriado que a Edison Company inaugurasse essa inovação. Assim, concebi e preparei uma história chamada A vida de um bombeiro americano, uma história completa de 244 metros, baseada em um elemento dramático muito bom, e apresentando a vida do bombeiro no trabalho e em sua casa. Ele tornou-se instantaneamente popular e continuou a ser exibido por mais tempo consecutivo do que qualquer produção cinematográfica anterior. Encorajados pelo sucesso dessa experiência, dedicamos todos os nossos recursos à produção de histórias, em vez de cenas soltas e desconexas.
A minha mente salta desta época para o início de 1912, quando a Famous Players Film Company foi organizada para apresentar peças famosas e estrelas celebradas em filmes. Entre 1899 e esta última data, o trabalho de desenvolvimento e formulação sistemática prosseguiu de forma constante, até que finalmente foi possível não só apresentar pequenas histórias dramáticas em filmes, mas também os grandes sucessos dramáticos do palco. Estas duas datas devem representar sempre épocas decisivas na história do cinema. Estou mais orgulhoso do que talvez devesse por ter sido responsável pela primeira história conectada no cinema e, mais tarde, por estar associado à preocupação de levar adiante a apresentação de célebres dramas ao público do filme posado.
O que o futuro reserva, ninguém pode dizer. Mas as suas possibilidades são tão ilimitadas e incalculáveis como as dificuldades e dilemas que assolaram o produtor nos primeiros tempos da arte. Que os homens largamente responsáveis pela atual excelência dos filmes buscarão coisas maiores, parece certo.
(The Moving Picture World, 11 de julho de 1914; p. 206)
Tradução de Christofer Pallu



